Juíza da magistratura paulista e autora da trilogia “Quando o Estômago Grita”, “Quando a Alma Viaja” e “Quando o Coração Sangra”, Eliete traduz vivências humanas profundas em literatura que convida ao mergulho interior.

foto: arquivo pessoal da autora
Em um tempo marcado por excessos de informação e escassez de escuta, histórias que atravessam o humano com profundidade ganham ainda mais relevância. É nesse território que se insere a obra de Eliete, autora da trilogia “Quando o Estômago Grita”, “Quando a Alma Viaja” e “Quando o Coração Sangra”, três livros que transformam emoções em linguagem e convidam o leitor a encarar, sem filtros, as camadas mais íntimas da experiência humana.
Formada pela Universidade de São Paulo, Eliete de Fátima Guarnieri encontrou no Direito mais do que uma carreira: um espaço de observação da condição humana. Ao longo de sua trajetória na magistratura paulista, consolidou-se como uma juíza respeitada, atenta ao impacto real de suas decisões e profundamente conectada às questões sociais, especialmente aquelas que envolvem infância, juventude e educação. Essa vivência, marcada pelo contato direto com histórias de dor, conflito e transformação, atravessa sua escrita de maneira sensível e autêntica.
Paralelamente à vida jurídica, a literatura sempre esteve presente. Leitora voraz desde a adolescência, Eliete cultivou a escrita como um espaço de expressão e elaboração. Nos últimos anos, esse movimento ganhou força, dando origem a uma produção literária que traduz sentimentos complexos em narrativas viscerais, capazes de tocar o leitor pela identificação e pela verdade.
Conversamos com a autora sobre seu universo da literatura e da vida contemporânea.

a triologia “Quando o Coração Sangra”, “Quando o estômago grita” e “Quando a Alma Viaja” , da autora Eliete de Fátima Guarnieri
Entrevista Eliete de Fátima Guarnieri para Campinas Café
1. Sua formação é no Direito, uma área marcada pela lógica e pela estrutura. Em que momento a poesia e a literatura encontram espaço dentro de você e se tornou uma forma de expressão?
A vontade de me expressar pela literatura, no conto e na poesia, surgiu na adolescência, quando conheci a obra de Machado de Assis. Na época eu não pensava em seguir a carreira jurídica, mas em ser jornalista. Antes de iniciar o curso de direito, comecei a cursar jornalismo na UNESP, em Bauru, mas acabei desistindo do curso por achá-lo muito técnico. E encontrei no direito o que busquei no jornalismo. Durante anos, praticamente abandonei a literatura para me dedicar à carreira da magistratura, o que mudou com a pandemia de Covid-19 que me fez retornar à minha paixão. Somente consegui me realizar pessoalmente ao conciliar meu trabalho (o Direito) com minha vocação (a Escrita).
2. Nos livros “Quando a Alma Viaja” e “Quando o Coração Sangra”, percebemos uma escrita muito sensível e introspectiva. De onde nascem essas emoções que atravessam seus textos?
As emoções nascem da memória, de fatos que vivi pessoalmente ou dos quais tive conhecimento e que me marcaram de alguma forma, positiva ou negativa, levando-me à reflexão. Os sentidos também estão presentes em meu processo criativo. Tudo o que me aguça a audição, a visão, o toque, o paladar e o olfato incita-me a encarar o abismo da folha em branco.
3. Muitos leitores sentem que seus capítulos são quase convites para uma jornada interior. Você escreve pensando nessa viagem do leitor ou isso surge naturalmente no processo criativo?
Depende. Há textos que escrevi pensando na viagem do leitor à imersão nas palavras e à reflexão, como “Amor Paterno”, “Profano”, “Aroma de Alecrim”, “Satiríase” e “Manhã de Novembro”, mas a maioria surgiu naturalmente no processo criativo.
4. Viajar parece ser um elemento simbólico em sua obra. As viagens que você faz pelo mundo influenciam diretamente suas reflexões e poesias?
Sim. Amo viajar e vários textos decorrem de inspirações nascidas em minhas viagens.
5. Existe algum lugar, cidade ou paisagem que tenha despertado em você uma inspiração especial para escrever?
Sim, vários. Escrevi um conto (“Apenas um Rosto”) e um poema (“Veneza” ) inspirados na cidade de Veneza, um conto de suspense que narra a viagem de uma família a um hotel em Termas de Chillán, no Chile (“Roca Negra”), um outro que menciona Santiago do Chile e o Atacama (“O Chileno”). Tem também um texto em que descrevo uma cena de um casal no quarto de um hotel alpino (“Pas de Deux””) e dois contos cujas personagens foram inúmeras vezes a Paris (“Quando o Estômago Grita” e “Ter e Ser”). As cidades de Veneza e Paris e o Chile me encantam. Quanto à paisagem, no poema “Antítese”, retrato meu amor pelo pôr do sol e pelo nascer da lua, no poema “Ego”, meu gosto pelo sol, pela chuva, pelo mar e pela neve, no conto “Luna Blu”, a alegria de uma adolescente que caminha pelo parque numa tarde chuvosa. Por fim, minha cidade natal, Piracicaba, sempre me inspira e é retratada em vários contos (“Philomena”, “Dona Iraci”, “Assimetria”, “Viagem Perigosa”, “Quando a Alma Viaja”, “Manhã de Novembro” e “Dezesseis Anos”).
6. Em seus textos, percebemos uma mistura de contemplação, sensibilidade e reflexão sobre a vida. O que mais te inspira no cotidiano para transformar sentimentos em palavras?
Na poesia, a música, a paisagem, a natureza e a própria literatura me inspiram. Na prosa, minha inspiração é a realidade.
7. Para você, escrever é mais um exercício de reflexão sobre a vida ou uma forma de traduzir emoções que às vezes não cabem na linguagem comum?
É mais um exercício de reflexão sobre a vida. Sou uma escritora realista.
8. Entre a razão do Direito e a sensibilidade da Literatura e da poesia, como você enxerga essa convivência dentro de você como autora e como pessoa?
Como meu estilo é realista, essa convivência fica mais harmônica. A sensibilidade usada na literatura e na poesia possuem substrato na razão.
9. Ao reler seus próprios textos, você sente que cada poema registra um momento específico da sua própria jornada emocional?
Sim, a maior parte de minha poesia retrata momentos de minha jornada emocional ao longo de 32 anos de escrita.
10. Minuetos em Versos traz uma delicadeza poética que dialoga muito com a tradição literária europeia. Como surgiu a ideia de traduzir sua obra para o francês e o que essa experiência representou para você como autora?
Comecei a estudar francês também na adolescência. Inicialmente, a intenção foi aprender a língua para passar no vestibular. Frequentei o ensino fundamental e médio em escolas públicas e não tive um bom ensino de inglês. Acabei me apaixonando pela língua francesa que possui muita musicalidade e me aprofundei no estudo dela. Resolvi traduzir meus poemas para o francês em razão de sua beleza e musicalidade. Foi uma ótima experiência e almejo fazer o mesmo em meu próximo livro de poesia. Como autora, permitiu que pessoas que não conhecem o português conheçam minha obra na versão francesa.
11. A poesia muitas vezes carrega nuances bem íntimas da língua original. Como foi para você ver seus versos atravessarem outra língua e outra cultura por meio da tradução?
Meu estilo simples e minimalista facilitou a tradução. Porém, infelizmente, em “Minueto”, não consegui manter a mesma estrutura. Nesse poema, usei, no final dos três primeiros versos, a palavra “toca” e não consegui fazer o mesmo na versão francesa, pois o verbo usado para a ação de tocar um instrumento é diverso. Assim, em português, os três primeiros versos são “O piano toca. O silêncio toca. O olhar nos toca”. E em francês, ficaram “Le piano joue. Le silence touche. Le regard nous touche”. Essa diferença comprometeu a musicalidade do poema. Por outro lado, os temas abordados nos poemas, como amor, solidão, tristeza, são universais e permitem a identificação do leitor estrangeiro.
12. O título remete ao minueto, uma dança marcada pela leveza e pela harmonia. De que forma esse conceito musical e estético inspirou a construção dos poemas presentes na obra?
Na realidade, somente um poema foi inspirado exatamente no minueto, aquele cujo título é exatamente esse. Todos os poemas, porém, foram escritos com inspiração na música. Estudei piano clássico e, talvez, por isso, procuro sempre a musicalidade das palavras dos textos que escrevo. Tenho o hábito de reler meus textos em voz alta para sentir a sonoridade deles. Os poemas – curtos – são pequenas materializações de memórias, minuetos de palavras.
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