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Por Raíssa Zogbi 

A letra de Raul Seixas que faz alusão a um sonho e relata “o dia em que a Terra parou” chegou próximo da realidade de muitos países nos últimos dias e meses, frente ao cenário de pandemia do novo Coronavírus, o covid-19.

O isolamento social, a principal medida adotada pela Organização Mundial da Saúde para controlar a proliferação do vírus, fez com que a sociedade mundial assistisse a Torre Eiffel fechada, a Duomo vazia, o futebol suspenso, o Cristo Redentor sem turistas, as empresas sem funcionários, as praias sem banhistas e as ruas sem carros.

“Fique em casa”. Esse foi o principal apelo para tentar combater a doença que chegou a matar 793 pessoas em apenas 24 horas na Itália. Mas, a medida gerou polêmica e levantou a reflexão “o que vai matar mais”: o Coronavírus ou as sequelas da economia com o país parado? A Campinas Cafe conversou com especialistas e traçou um panorama sobre a covid-19 e seus efeitos sociais e econômicos no Brasil e no mundo. Acompanhe!

A doença

Descoberto no dia 31 de dezembro de 2019, após casos registrados na China, o covid-19 faz parte da família Coronavírus, composta por outros vírus. Para se ter ideia, os primeiros casos em humanos, de acordo com o Ministério da Saúde, foram isolados pela primeira vez em 1937. Em 1965, ele recebeu o nome de “coronavírus”, por sua forma microscópica lembrar uma coroa. Por ser transmitida pelo ar e contato interpessoal, através de gotículas contaminadas, medidas como lavar as mãos e isolamento social foram adotadas.

Efeitos do “fique em casa”

Por que o covid-19 é uma pandemia?

Para ser considerada pandemia, uma doença não precisa necessariamente atingir um número específico de casos. A decisão da OMS considera que uma doença infecciosa atinge essa classificação quando afeta um grande número de pessoas espalhadas pelo mundo. Ou seja, trata-se de um alerta para que todos os países adotem medidas de contenção da disseminação do vírus e se prepare para cuidar dos pacientes.

Mantenha a rotina!
Dentro das orientações essenciais citadas, vale reforçar a importância de manter uma rotina no período dentro de casa. A médica geriatra formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das idealizadoras do Grupo Vitalidade, projeto focado em promoção de saúde e qualidade de vida no envelhecimento, Daniela Gracioli Bacha, lembra a importância de manter hábitos durante esses dias. “É interessante que siga com atividades parecidas com a rotina habitual, evitando passar o dia de pijama ou fazer grandes mudanças nos horários de sono e refeições”, orienta.

Informação x pânico

A tecnologia contribui para a disseminação rápida das notícias. Por outro lado, aumenta também a veiculação de “fake news”, outra responsável por crises de pânico e ansiedade. “Estamos sendo bombardeados por informações sobre a pandemia o dia todo e assim será nos próximos meses. É importante ter acesso a fontes confiáveis e recorrer a elas apenas uma ou duas vezes ao dia para evitar estresse e ansiedade”, lembra a geriatra Daniela. Os idosos, muitas vezes, são o alvo dessas informações falsas. “Faça chamadas de vídeo com seus pais e familiares para manter os laços afetivos em momentos de estresse e possibilitar momento de distração, principalmente para os idosos”, lembra.

Efeitos do “fique em casa”

Tecnologia: use-a a seu favor

Diante do cenário, supermercados, restaurantes e diversos outros serviços passaram a oferecer a ferramenta de compra online, que contribui para evitar o contato pessoal e reduz as chances de contaminação. Além disso, há uma infinidade de opções para se fazer durante o período de quarentena para criar momentos de distração, como se comunicar  com amigos e familiares, fazer cursos online, aprender novas receitas, assistir a séries e filmes e visitar acervos digitais de museus.

Empatia e solidariedade

“Seja físico ou digital, esse contato precisa ser saudável, produtivo, precisa trazer alegria, gerar empatia e resiliência. Pense duas vezes antes de enviar uma mensagem no WhatsApp que possa causar angústia em alguém. Nunca é tarde para começar bons hábitos. De modo geral, precisamos tirar as lições boas em que os períodos de estresse nos proporcionam”,  esclarece Danielle, especialista em Lifestyle Medicine. “É importante que, em momentos críticos como este, sejamos solidários com nossos familiares e a sociedade como um todo. Para que os dias sejam menos difíceis e possamos passar por eles com menos sofrimento”, finaliza Daniela Bacha.

Isolamento social x mental

Não circular nas ruas, evitar aglomerações, esvaziar os transportes públicos e ficar em casa. Essa realidade é reflexo do isolamento social, que passou a ser uma necessidade para evitar novas mortes pelo Coronavírus, e que, muitas vezes, pode vir acompanhado de sintomas de ansiedade e depressão.

A médica cardiologista formada pelo Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP (INCOR-FMUSP) e em Lifestyle Medicine pela Universidade de Harvard (EUA), Danielle Salaorni de Resende, explica que é preciso administrar o atual cenário. De acordo com ela, existem seis pilares que contribuem para manter a saúde física e mental nesse período. “É fundamental manter uma alimentação saudável, fazer atividade física dentro de casa, evitar o consumo de álcool e tabagismo, ter qualidade de sono, estabelecer relações interpessoais saudáveis mesmo em âmbito digital e ter controle do estresse. Todos esses pilares contribuem para o aumento da imunidade”, explica. Acompanhe as dicas da médica.

Pilar 1 – Alimentação: para manter a imunidade alta, a alimentação deve ser rica em legumes, verduras, vegetais e frutas. Retire os alimentos ultraprocessados, processados e industrializados e beba muita água.

Efeitos do “fique em casa”

Pilar 2 – Atividade física: hoje, com a tecnologia, é possível utilizar aplicativos que dão dicas de atividades simples para fazer em casa. Não deixar controle remoto perto: sempre levante para pegar alguma coisa. Movimente-se!

Pilar 3 – Cessação do álcool e tabagismo: essas substâncias diminuem a imunidade.

Pilar 4 – Sono: tente estabelecer em torno de sete horas de sono por noite. O importante é que essas horas sejam contínuas. Para ajudar, uma hora antes de dormir evite redes sociais, tablet, celular e tv. Abaixe as luzes da casa e faça uma leitura calma.

Efeitos do “fique em casa”

Pilar 5 – Relações interpessoais: é importante que as relações pelas redes sociais sejam de qualidade, edificantes, que te façam crescer individualmente e traga sensação de gratidão e resiliência.

Pilar 6 – Tenha controle do estresse: ele faz a imunidade baixar. Cheque as fake news para ver se realmente são verdadeiras antes de disparar.  Mantenha uma rotina: coloque roupa, penteie o cabelo, tenha um momento de oração, de estudo, de brincar com os filhos. Cada um dentro de sua rotina. Outra dica é escrever três motivos pelo qual você é grato: é cientificamente provado que esse hábito reduz o estresse.

Efeitos na economia

Efeitos do “fique em casa”
Mário Armando Gomide Guerreiro

As medidas que envolvem o chamado “isolamento social” geram polêmicas sobre seus efeitos: de um lado, médicos clamam por ele para evitar novos doentes e, consequentemente, mais mortos. Do outro, gestores e empresas questionam sobre os efeitos em longo prazo de tirar a economia da tomada. Muitos alegam, ainda, que futuramente elas podem ser responsáveis por matar ainda mais pessoas desempregadas, que acarretam novos problemas sociais, fome, violência. Em linhas gerais, o aumento da desigualdade. Com a decisão tomada pelas autoridades, o professor Mário Armando Gomide Guerreiro, economista formado pela PUC Campinas e Ph.D em Administração pela Florida Christian University dos EUA e Mestre em Administração, Educação e Comunicação pela Universidade São Marcos (SP), explica alguns desses efeitos. Acompanhe.

  1. Quais os maiores impactos do Coronavírus na economia do país?

M: Antes de adentrarmos na pergunta, vamos fazer uma breve contextualização histórica da economia brasileira. A economia brasileira vem se recuperando gradativamente de uma forte recessão ocorrida em 2015 e 2016, em que o PIB (Produto Interno Bruto) recuou em 3,5% e 3,3% , respectivamente. Isso proporcionou uma queda acentuada no consumo das famílias, afetando a demanda agregada e a renda agregada, ou seja, a economia sofreu um forte trauma econômico. Neste contexto, ainda não conseguimos atenuar totalmente esses efeitos, pois a economia vem crescendo muito aquém de sua capacidade e necessidade, crescendo 1,3% em 2017 e 2018 e 1,1% em 2019  , percentuais que não conseguem suprir as necessidades de nossa economia. Somado a isso, temos uma gama de desempregados da ordem de 12 milhões de pessoas e também um número elevado de trabalhos informais (sem carteira). A classificação da OMS (Organização Mundial da Saúde) colocando o Coronavírus como uma pandemia, e face a nossa vulnerabilidade econômica que está em processo lento de recuperação, irão acelerar as incertezas na economia. Os impactos econômicos e sociais serão cada vez maiores conforme a epidemia se aprofunde e se alastre no país. No primeiro semestre de 2020 entraremos em recessão. Caso a curva da epidemia faça o seu ponto de inflexão, inversão em junho, ou seja,  a curva entre em um processo descendente, de declínio da contaminação, haverá espaço para crescermos no segundo semestre e termos um crescimento próximo de zero. Porém, caso essa inversão ocorra em setembro poderemos ter uma recessão até maior que os anos de 2015 e 2016.

  1. Há alguma recomendação  para pequenas, médias e grandes empresas frente ao cenário nesse momento?

M: Empresas que estão trabalhando com um cash flow (fluxo de caixa) mais confortável devem conseguir atravessar essa turbulência com maior facilidade. As grandes empresas são mais engessadas para se adaptar a eventos inesperados do que negócios de menor porte, todavia existem grandes corporações que são oligopólios no mercado e dominam determinado segmento e, com isso, conseguem atenuar os impactos. Ainda no campo das pequenas e médias empresas, as que possuem custos fixos  e despesas mais equilibradas e equacionadas em face da queda de receitas, conseguirão encontrar seu Break Even Point  (ponto de equilíbrio) mais rapidamente em outro patamar.

É importante salientar que a manutenção dos empregos é ponto muito importante para a recuperação pós-crise, pois há uma mão de obra treinada e especializada, que os empreendedores irão  precisar. As reduções salariais e férias coletivas são  importantes instrumentos antes das demissões. Há uma tendência de que novas linhas de crédito tenham juros menores. Por isso, é importante os empreendedores estarem atentos às novas determinações por parte do governo.

Efeitos do “fique em casa”

  1. O vírus iniciado na China alcança um novo país a cada dia. Paralelamente, vemos a China se recuperar. Como você avalia o que a equipe de economia brasileira tem feito no país? Estamos no caminho certo?

M: Contextualizando macroeconomicamente, o governo está com uma agenda de atenuar os impactos da crise. Como ações objetivas, haverá a injeção de R$ 170 bilhões de reais na economia nos próximos três meses. Outro fator importante é o desconto por três meses no Sistema S (SENAC, SESC, SESI, SENAI) proporcionando um fôlego de R$2,2 bilhões para as empresas. O BNDES (Banco Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social) também injetará na economia R$55 bilhões e o FED (Federal Reserve), Banco Central dos USA, com o intuito de oferecer maior liquidez em dólares ao BACEN (Banco Central do Brasil), proporcionou US$ 60 bilhões de dólares em linhas de swap (troca), visando diminuir as tensões nos mercados globais, a vulnerabilidade e a volatilidade do Brasil nos mercados. Na prática, significa um reforço em nossas reservas cambiais, que hoje estão na ordem de US$355 bilhões de dólares, e com isso inibir ataques especulativos contra o real.

Efeitos do “fique em casa”

  1. Dentro de quanto tempo podemos pensar em uma economia se recuperando?

Tudo irá depender da velocidade da propagação do vírus. Quanto maior for o tempo de recuperação, maior será o impacto negativo na economia. Hoje, temos projeções estatísticas de quanto tempo essa epidemia irá demorar. O impacto negativo já é uma realidade. Caberá a todos nós tentar atenuá-lo, sempre atentos às recomendações dos órgãos de saúde para que logo possamos inverter essa curva e estabelecermos um Plano de Recuperação. Vale lembrar que hoje vivemos em uma economia globalizada e o mundo também estará em processo de recuperação, com os países buscando formas de se reerguer rapidamente e trabalhando pelos seus interesses.

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