Ícone de nuvem C Campinas Ícone de calendário Ícone de hora

Saúde mental, propósito e os limites da performance: os desafios emocionais da vida profissional moderna

Redação Graciolimaio 19, 2026

Em um mundo marcado pela hiperconexão, pela pressão constante por performance e pelo aumento dos casos de ansiedade e burnout, falar sobre saúde mental deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade urgente — tanto na vida pessoal quanto no ambiente corporativo.

Nesta entrevista exclusiva, conversamos com a psicoterapeuta e palestrante Margareth Cardoso, especialista em saúde mental e desenvolvimento humano. Com atuação clínica e corporativa, Margareth aborda temas como inteligência emocional, liderança, prevenção do esgotamento emocional, qualidade de vida e transição de carreira, além de utilizar abordagens como o EMDR no tratamento de traumas e no fortalecimento emocional.

Em um bate-papo direto e reflexivo, ela analisa os impactos da sobrecarga digital, os desafios das relações profissionais contemporâneas, o aumento das mudanças de carreira e até as lições emocionais presentes no universo de “O Diabo Veste Prada”. Uma conversa necessária sobre equilíbrio, propósito e humanidade no mundo atual.

Confira a entrevista na íntegra:

•⁠  ⁠Em um cenário de hiperconexão e cobranças constantes, por que tantas pessoas têm dificuldade de reconhecer os primeiros sinais de ansiedade e burnout no ambiente de trabalho? ⁠A sobrecarga digital e a necessidade de estar disponível o tempo todo têm impactado diretamente a saúde mental. Como criar limites saudáveis sem comprometer a produtividade e a carreira?

Esse é um grande desafio desde a criação do pager e do email.   Hoje é praticamente impossível não usar o celular mesmo fora do trabalho, uma vez que tudo hoje é digital (conta bancária, comunicação com a escola dos filhos, agendamento de exames).

Mas alguns comportamentos e hábitos podem nos ajudar a ter uma relação mais saudável e com limites com a tecnologia e a disponibilidade de ser acessado. Por exemplo:

Quando possível, ter um número de celular dedicado ao trabalho, facilita se desconectar fisicamente do telefone nos horários que não está trabalhando.

Estabelecer um horário para acessar e parar de acessar mensagens nos diferentes canais (whatsapp, email, redes sociais). 

Desligar notificações.

Informar a equipe ou o líder sobre os horários e dias em que você estará acessível.

E o mais difícil, você mesmo respeitar esses horários.

Durante o horário de trabalho, estabelecer momentos para checar emails ou mensagens no celular.   Negocia prazos de entrega ou resposta.  Deixar caro quando entregará tal atividade.

Porque é importante diferenciar estar acessível de ser produtivo.  E lembrarmos que sim, a maioria das solicitações podem ser respondidas dentro de um prazo razoável de tempo, porque em geral não são realmente urgentes.   São importantes, mas em geral não urgentes.

Em geral as empresas tem claras essas regras de disponibilidade, mas o líder do time dá o tom.  Se ele ou ela envai mensagens no domingo, o time sente-se pressionado a responder no domingo.  Então o exemplo precisa ser dado pela liderança da empresa, do time.

•⁠  ⁠Muitas empresas falam sobre bem-estar emocional, mas ainda enfrentam ambientes tóxicos e altos índices de esgotamento. O que realmente diferencia uma cultura corporativa saudável de um discurso apenas institucional?

Um conjunto de fatores fazem essa diferenciação.  

Um código de conduta claro e politicas explicitas sobre o que é aceitável ou não na empresa .  Muitas vezes o obvio precisa ser dito.

Além de politicas claras, os processos para checar se as politicas executadas , vivenciadas no dia a dia.   Exemplo:  Se a empresa prega um ambiente respeitoso, quando alguém grita ou levanta a voz, ou ainda se coloca de forma desrespeitosa com palavras ou gestos, o que acontece?   As pessoas persentes na reunião podem intervir sem risco de retaliação? Há um canal de denuncias? Todos na empresa sabem o que fazer diante de uma situação desrespeitosa entre colegas, ou líder e equipe?

Essas iniciativas coíbem comportamentos indesejados e que criam um ambiente adoecedor.  Mas também é importante falarmos das ações e políticas que promovem um ambiente saudável e que são comprovadas em diferentes contextos.   Exemplo, Horário flexível, trabalho híbrido, não marcar reuniões na 6ª feira.  Política e práticas inclusivas. Palestras e cursos sobre desenvolvimento da inteligência emocional, sobre antirracismo, sobre inclusão na prática.  Sobre machismo estrutural, comunicação assertiva.

Outro ponto relevante é o estabelecimento de metas realistas de desempenho e um processo de avaliação claro e feedback construtivo.

Empresas que possuem essas práticas , oferecem as ferramentas necessárias para que seus funcionários aprendam e se comportem de forma a promover um ambiente colaborativo, respeitando as individualidades, com objetivos compartilhados , fatores que promovem a saúde mental no ambiente de trabalho.

•⁠  ⁠A transição de carreira deixou de ser vista como exceção e passou a fazer parte da trajetória profissional de muitas pessoas. Na sua visão, por que esse movimento se tornou tão forte atualmente e qual a relação disso com a longevidade e a ideia de viver múltiplas carreiras ao longo da vida?

Percebo essa questão como multifatorial, envolvendo aspectos econômicos, sociais e emocionais. Há sim uma correlação direta com a longevidade, com o desenvolvimento do autoconhecimento e com as mudanças cada vez mais rápidas no mundo do trabalho.

Com a longevidade, são poucas as pessoas que poderão ficar realmente aposentadas depois dos 60 anos, se pensarmos que a reserva financeira construída deverá manter os próximos 30, 40 anos que a pessoa ainda viverá.

Outro aspecto é que a independência financeira das gerações mais jovens está cada vez mais tardia e pais e avós ainda são a maior fonte de renda das famílias.

As mudanças no mercado de trabalho, com o avanço da tecnologia e um mundo praticamente sem fronteiras, há a necessidade de se adaptar e buscar novas habilidades, carreiras e estar aberto para trabalhos que vão surgindo rapidamente. Por exemplo, quem pensou que teríamos pilotos de drones nas lavouras ou mais atualmente, gestores de agentes de IA?  Essas mudanças trazem possibilidades de carreiras que não existiam há 5, 10 anos.  E isso também é um fator que possibilita ter múltiplas carreiras .

De um ponto de vista mais individual, temos o envelhecimento saudável.  As pessoas continuam sentindo-se motivadas a ter uma ocupação, a ser útil para sociedade ou ainda, realizar o sonhos que só depois dos 40, 50 , 60 anos  de idade foi possível.   Iniciando uma faculdade ou um novo negócio aos 50 , 60 anos e fazendo planos para o futuro.  Porque hoje está cada dia mais comum viver até os 100 anos.

•⁠  ⁠Pesquisas recentes mostram que mais de 40% dos profissionais brasileiros pretendem mudar de carreira, impulsionados por propósito, qualidade de vida e saúde mental. Como identificar se essa vontade representa uma necessidade real de transformação ou apenas um reflexo do esgotamento emocional vivido no trabalho?

Importante fazer uma autoavaliação e observar como se sente no momento que está vivendo.  O que esse trabalho atual traz? Nutre ou desgasta? Em que proporção? Outro ponto é se perguntar a serviço de que está essa mudança? Qual seu projeto de vida?  Que emoções sustentam esse desejo de mudar? Frustração, desânimo, curiosidade, autoconfiança. Coragem?

Essas reflexões podem ajudar a identificar se a pessoa está fugindo da situação atual ou se realmente a motivação vem do autoconhecimento e construção de um novo jeito de viver.

Na minha visão , o melhor momento para planejar uma mudança de vida e de carreira é quando está tudo bem. Poque a pessoa está tranquila e satisfeita com o que está vivendo e pode começar a pensar no que mais almeja da vida e ter a força necessária para mudar e sustentar o processo da mudança.

Quando estamos cansados , frustrado ou adoecidos, a motivação é parar de sofrer e nem sempre  é possível  ter a energia para sustentar o processo de mudar.

•⁠  ⁠Sob um olhar da saúde mental, emocional e do desenvolvimento humano, o que o universo do filme O Diabo Veste Prada e trajetória de Miranda Priestly revelam sobre liderança, perfeccionismo, solidão no poder e os impactos emocionais da busca constante por performance?

Esse filme traz muitas mensagens sobre liderança.  Uma delas é como a sociedade não tolera mais o abuso de poder de quem ocupa o cargo de liderança.  Na cena em que Miranda  pendura o próprio casaco e noutra cena onde acontece uma reunião e a assistente fica alertando a Miranda que não ela pode mais falar certas coisas, que o RH não vai aprovar.

A trajetória da Miranda a da Andy , tanto no primeiro filme quando no segundo, mostram como somos afetados por tentar atendar as demandas do sucesso. 

Andy vai se distanciando de sua essência mais questionadora e se torna adequada ao seu novo papel mas distanciada de suas crenças.  Ao perceber isso, pede demissão no final do primeiro filme.  Esse dilema reaparece no segundo filme quando ela, desempregada, aceita voltar para a revista mesmo se questionando que isso náo está de acordo com o que gostaria para sua carreira.

Miranda se orgulha de sua carreira e do status que sua fama de perfeccionista lhe dá na indústria da moda, mas nos dois filmes aparece o desajuste na vida pessoal com o casamento afetado no primeiro filme e no segundo quando fala que a carreira lhe custou não ver as filhas crescerem.  Situação que muitos líderes se identificam.

Tanto Miranda como Andy, mostram um sofrimento emocional com as incoerências que vivem e nos dilemas de tentar conciliar o que precisam e o que querem na carreira e na vida.  Além da dificuldade (por motivos diferentes) de não se sentirem pertencendo ou valorizadas no ambiente de trabalho.  E o esforço que fazem para manter a aparência de que está tudo bem.

Sai do filme bastante reflexiva sobre o quanto esse filme revela tantas nuances difíceis de viver  no ambiente corporativo.

Saúde mental, propósito e os limites da performance: os desafios emocionais da vida profissional moderna

Maior bar de rock do Estado de São Paulo, Santo Rock, chega a Campinas

Arquétipos e comportamento: como símbolos ancestrais ajudam a entender a vida moderna

Da pressão corporativa à ficção: atualização da NR-1 encontra eco em romance sobre uma vida sem fim e sem pausa

Artigos relacionados