Elza Soares: de infância difícil a sucesso absoluto nos palcos

Cantora chegou a ser perseguida pela ditadura, foi casada com Garrincha e nomeada cantora do milênio

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Faleceu nesta quinta-feira (20) Elza Soares, uma das maiores cantoras e personalidades da história do Brasil. Ela tinha 91 anos e estava em sua casa. De acordo com Pedro Loureiro, ela morreu de “causas naturais” após não se sentir bem.

Nascida em Moça Bonita, favela do bairro de Padre Miguel no Rio de Janeiro, sempre foi símbolo de luta, resistência e talento. Filha de lavadeira e operário, trabalhou como encaixotadora e conferente em um fábrica de sabão, carregou baldes na cabeça desde muito jovem. Em 2000, já com a carreira em ascensão, foi nomeada “cantora do milênio” pela Rádio BBC de Londres. A equipe da Campinas Café preparou um material que conta um pouco de sua história, traumas, sucessos e acontecimentos marcantes desse ícone. Acompanhe!

CASAMENTO NA INFÂNCIA

Obrigada pelo pai, Elza casou-se aos 12 anos, quando ainda era apenas uma criança, com Lourdes Antonio Soares, de quem cantora herdou o sobrenome. Aos 13, foi mãe do primeiro dos oito filhos. A união durou pouco tempo, com 21 anos Lourdes faleceu e Elza já era viúva.

“Eu soltava pipa, jogava bola de gude, com filho no colo. Pegava balão, corria muito, brincava com eles. Foi assim que foi a minha vida. Era criança e mãe”, disse a cantora à BBC em 2018.

PERDA DOS FILHOS

Os primeiros dois filhos que tivera no primeiro casamento morreram de fome, ainda na adolescência, já que ela e o marido viviam em condições de subsistência. Mais tarde, no relacionamento que teve com Garrincha, um dos maiores jogadores da história, o filho “Garrinchinha” morreu em 1986 com apenas nove anos, vítima de um acidente de carro. A tragédia traumatizou a cantora e fez com que tentasse suicídio e saísse do país.

Mais recentemente, em 2015, seu outro filho, Gilson, de 59 anos, foi vítima de complicações após uma infecção urinária e também faleceu.

CARREIRA MUSICAL

Em 1953, deu início a sua trajetória na música, aos 23 anos. Começou em um teste na Rádio Tupi chamado “Calouros em desfile”. Em 1959 gravou seu primeiro disco que contava com o clássico samba “se acaso você chegasse”, que serviu para estourar sua carreira. Já em São Paulo, lançou seu segundo álbum, “Bossa Negra” e continuou fazendo sucesso, já mais consolidada, viajou para o Chile para representar o Brasil na Copa do Mundo.

Na década de 1970, viajou em shows nos Estados Unidos e Europa, encantando agora o público internacional. Elza já participou de shows e projetos com Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil, Nando Reis, Jorge Bem Jor, Seu Jorge, entre outros. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, realizado no Rio de Janeiro, cantou a capela o hino brasileiro na cerimônia de abertura. Em 2016, também cantou na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro cantou “O Canto de Ossanha” de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Pouco antes, em 2015, continuou produzindo e lançou o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”, cujo foi aclamado pela crítica e foi indicado ao Grammy Latino. Seguiu seu trabalho e teve como o último sucesso “Deus é mulher”, lançado em 2018, que foi considerado pela revista Rolling Stones o segundo melhor álbum brasileiro daquele ano. A obra derradeira foi “Planeta Fome”, em referência ao episódio em que foi constrangida por Ary Barroso em 1950 no show de calouros. Na ocasião, foi questionada por Barroso: “”De que planeta você vem, menina?”. Ela respondeu: “Do mesmo planeta que você, seu Ary. Eu venho do Planeta Fome.”

RELACIONAMENTO COM GARRINCHA

Em 1962, Mané Garrincha já era um dos melhores jogadores do mundo, ídolo no Botafogo e Campeão Mundial com a Seleção Brasileira sendo protagonista, já que Pelé estava machucado. A essa altura Elza também era famosa e havia conquistado a todos com sua marcante voz rouca.

Meses antes do Mundial, eles se conheceram em um treino do Botafogo. Porém, ambos eram compromissados, Elza namorada o músico Milton Banana e Garrincha era casado. Após um tempo vivendo às escondidas, Mané se divorciou e casou com a cantora, causando grande impacto na época, sendo duas grandes figuras. Crioula e Neném foram perseguidos por parte da imprensa e até mesmo dos fãs, que acusavam Elza de ter sido a responsável pelo divórcio do camisa 7 botafoguense.

Sempre com problemas com (falta) de disciplina e álcool, desde a infância até a juventude com o emprego na fábrica que trabalhava antes de ser jogador, Garrincha era alcoólatra e violentava Elza de maneira física e psicológica, a cantora até teria tido os dentes quebrados em dado momento da relação. Em 1969, em um acidente na rodovia Presidente Dutra, em que Garrincha estava dirigindo bêbado eles sofreram um acidente e Rosária Maria da Conceição, mãe de Elza, faleceu. Após 15 anos juntos, eles se separaram em 1982, e um ano depois, o ex-jogador morreu pobre vítima de cirrose hepática. Ainda assim, foi acusada pela opinião pública de ter abandoando o marido na luta contra o alcoolismo e que foi responsável pela decadência de Garrincha.

DITADURA MILITAR  

Em um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil, Elza Soares foi perseguida durante a Ditadura Militar. Ativa em movimentos antirracistas e feministas, ela gravou o jingle da campanha que levou João Goulart à vice-presidência em 1960. Mais tarde, em 1964, Goulart foi deposto pelos militares no golpe. Além disso, a cantora era ligada a Geraldo Vandré, grandes nomes na luta contra a ditadura.

Por isso, em 1970, passou um dos episódios mais aterrorizantes de sua vida, quando os militares invadiram sua casa com Garrincha e os filhos dentro e metralharam a residência. Antes disso, já haviam recebidos cartas e telefonemas anônimos contendo ameaças. Após o episódio, eles se exilaram para Roma, na Itália, período em que o jogador se afundou ainda mais no álcool, por ver o país em festa, sem ter onde jogar e morar, trancado em um quarto de hotel.

LEGADO

Independente de números de vendas, sucessos nos singles ou álbuns, Elza Soares representa muito mais do que isso, é um símbolo de resistência, Brasil e referência nacional e internacional, mesclando samba, eletrônico, hip hop e jazz com uma obra única e uma voz impecável, com uma vida marcada por autenticidade e lutas primordiais para toda a sociedade.

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