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Corrida, carboidrato e saúde bucal: o que o corredor precisa saber

Redação Graciolisetembro 14, 2026

Géis, gomas e bebidas esportivas ajudam a manter a energia em treinos e provas longas, mas consumo frequente, boca seca e produtos ácidos podem aumentar a exposição dos dentes a condições favoráveis à cárie e à erosão

Foto – Curaprox via assessoria HOLDING

São Paulo – Quem corre provas longas já incorporou alguns itens à rotina: tênis adequado, relógio, hidratação e, muitas vezes, sachês de gel, gomas ou bebidas esportivas para repor carboidratos ao longo do percurso. O que nem todo corredor considera é que essa estratégia, embora importante para sustentar a performance, também exige atenção à saúde bucal.

O crescimento da corrida de rua ajuda a explicar por que o tema ganha cada vez mais relevância. Somente em 2025, o Brasil realizou 5.241 corridas de rua oficiais, número 85% maior que o registrado no ano anterior, quando foram realizadas 2.827 provas, segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO).

Com mais pessoas treinando e participando de provas, cresce também o consumo de produtos desenvolvidos para oferecer energia de forma rápida durante o exercício. Géis, gomas, bebidas esportivas, mel e combinações de glicose, maltodextrina e frutose são algumas das opções utilizadas pelos corredores.

“Em exercícios prolongados, principalmente quando há maior intensidade, os estoques de glicogênio vão sendo utilizados e a suplementação de carboidratos ajuda a manter a oferta energética ao organismo”, explica a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

A questão é que, para os dentes, não importa apenas quanto carboidrato é consumido, mas também com que frequência ele entra em contato com a boca.

O problema está na repetição

Durante uma corrida longa, é comum que o atleta faça pequenas ingestões de carboidrato ao longo de horas. Ao mesmo tempo, o exercício pode reduzir o fluxo salivar, principalmente em situações de desidratação ou esforço intenso.

A saliva exerce funções importantes na proteção dos dentes: ajuda a limpar a cavidade oral, neutralizar ácidos e participar da remineralização do esmalte. Quando o fluxo salivar diminui, essa proteção natural também pode ficar comprometida.

“Glicose, sacarose, frutose, maltodextrina e outros carboidratos fermentáveis podem servir de substrato para bactérias presentes no biofilme dental. Essas bactérias metabolizam os carboidratos e produzem ácidos, provocando uma queda do pH ao redor dos dentes”, explica o cirurgião-dentista Prof. Dr. Hugo Lewgoy, doutor pela USP e consultor científico da Curaprox.

Quando essa queda de pH acontece repetidamente, o esmalte pode perder minerais em um processo conhecido como desmineralização. Se a exposição for frequente e a capacidade natural de recuperação não for suficiente, o risco de cárie aumenta.

Por isso, um detalhe da rotina do corredor merece atenção: a frequência com que o suplemento é consumido.

“Uma corrida longa reúne uma combinação particular de fatores: o atleta pode consumir pequenas doses de carboidrato repetidamente durante horas, além de apresentar redução do fluxo salivar relacionada à desidratação e à própria intensidade do exercício”, destaca Lewgoy.

Gel, goma e bebida não têm o mesmo comportamento na boca

A forma como o carboidrato é consumido também interfere na exposição dos dentes.

Géis e gomas, por exemplo, podem apresentar maior aderência às superfícies dentárias. Já as bebidas esportivas costumam ser ingeridas em pequenos goles sucessivos, prolongando o contato com a boca.

Há ainda outro fator: a acidez de determinados produtos.

“Nesse caso, além dos ácidos produzidos pelas bactérias após o consumo de carboidratos, o próprio contato frequente com produtos de baixo pH pode contribuir para a erosão dental”, explica o especialista.

Diferentemente da cárie, a erosão não depende da ação das bactérias. Trata-se da perda de estrutura mineral provocada diretamente pela exposição a ácidos.

Não é preciso abandonar o carboidrato

Apesar dos riscos, a recomendação não é eliminar os suplementos da estratégia esportiva. Para a Dra. Marcella Garcez, a quantidade e a forma de consumo devem considerar fatores como duração e intensidade do exercício, tolerância gastrointestinal e objetivo do atleta.

“Em determinados treinos e provas, simplesmente deixar de consumir carboidrato por medo da cárie não seria a melhor solução”, afirma.

A saída está em conciliar a estratégia nutricional com medidas simples de proteção dos dentes.

Uma delas é beber água após o consumo de géis, gomas ou outras fontes concentradas de carboidrato. Além de fazer parte da hidratação, a água pode ajudar a remover resíduos e reduzir o tempo de contato dessas substâncias com as superfícies dentárias.

Também vale evitar manter bebidas esportivas na boca por períodos prolongados ou fazer bochechos com elas antes de engolir. Quanto maior e mais frequente o contato, maior a exposição dos dentes.

Atenção também depois da prova

Outro cuidado aparece no momento em que o exercício termina. A vontade de escovar os dentes imediatamente pode ser grande, mas, quando houve consumo frequente de produtos ácidos, a recomendação é primeiro enxaguar a boca com água e aguardar cerca de 30 a 60 minutos antes da escovação.

Isso porque, logo após uma exposição ácida, a superfície do esmalte pode estar temporariamente mais vulnerável.

Mais importante, porém, é não deixar a prevenção restrita ao dia da corrida.

“A cárie é multifatorial. O gel utilizado durante a corrida não provoca uma lesão isoladamente. O risco depende também da presença e do controle do biofilme, da frequência de consumo de carboidratos, da saliva, da exposição ao flúor e dos hábitos de higiene daquele paciente”, explica Lewgoy.

Para corredores que consomem carboidratos com frequência durante os treinos, o controle do biofilme e a rotina de higiene oral tornam-se ainda mais importantes.

O especialista recomenda escovação cuidadosa pelo menos duas vezes ao dia, com uma escova ultramacia e cabeça compacta, além do uso de creme dental fluoretado. A limpeza entre os dentes também deve fazer parte da rotina, já que a escova convencional não alcança adequadamente todas essas regiões.

Entre as opções disponíveis, Lewgoy cita a Enzycal 1450, que contém 1.450 ppm de fluoreto de sódio e enzimas associadas aos mecanismos naturais de proteção da saliva, e as escovas interdentais CPS Prime, da Curaprox.

Para a Dra. Marcella Garcez, o cuidado reforça uma tendência importante no esporte: olhar para o atleta de maneira integral.

“Suplementação esportiva não deve ser entendida como o consumo aleatório de produtos. Existe um objetivo fisiológico e uma indicação. Quando a estratégia é bem planejada e acompanhada dos cuidados necessários, é possível obter o benefício do carboidrato para o exercício sem negligenciar outros aspectos da saúde”, finaliza.

FONTES

Dra. Marcella Garcez: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Além disso, é membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e da Sociedade Brasileira para o Estudo do Envelhecimento. CRMPR 12559 | RQE 16019 | Instagram: @dra.marcellagarcez

Prof. Dr. Hugo Roberto Lewgoy: Especialista, Mestre e Doutor pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo; consultor científico da Curaprox; pesquisador no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN); pós-graduado em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP); pós-graduado em Implantodontia pela Miami University e University of Berna; membro do International Team of Implantology (ITI), do International Association for Dental Research (IADR) e da Academia Brasileira de Odontologia (AcBO); instrutor da filosofia individually Training Oral Prophylaxis (iTOP). CRO/SP 35290

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