Tecnologia já utilizada para identificar tumores como pulmão, mama, próstata, cólon e pâncreas permite diagnósticos menos invasivos, mais rápidos e pode aumentar as chances de sucesso no tratamento

Professor dr. Ramon Andrade de Mello, médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo). Foto aquivo pessoal.
Imagine descobrir sinais de um câncer por meio de um simples exame de sangue, antes mesmo que o tumor seja identificado em exames de imagem. O que parecia um cenário distante já faz parte da realidade da oncologia moderna. Conhecida como biópsia líquida, essa tecnologia vem transformando o diagnóstico e o acompanhamento de diversos tipos de câncer ao identificar fragmentos do DNA tumoral ou células cancerígenas que circulam na corrente sanguínea.
A técnica representa um avanço importante na chamada medicina de precisão, permitindo que médicos obtenham informações sobre o comportamento do tumor de forma rápida e muito menos invasiva do que a biópsia tradicional.
“O exame oferece a possibilidade de identificar alterações moleculares antes mesmo que o tumor seja clinicamente visível. No tratamento do câncer, tempo significa vida. Quanto mais cedo iniciamos a terapia, maiores são as chances de cura e de aumento da sobrevida”, explica o oncologista Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello, professor universitário e pesquisador com atuação internacional na área.
Como funciona o exame?
Ao contrário da biópsia convencional, que exige a retirada de um fragmento do tecido suspeito por meio de cirurgia ou punção, a biópsia líquida é realizada apenas com uma coleta de sangue.
No laboratório, técnicas avançadas de sequenciamento genético analisam o plasma em busca de pequenas mutações, alterações genéticas ou células tumorais liberadas pelo câncer na circulação. Essas partículas podem aparecer ainda nos estágios iniciais da doença, antes mesmo de lesões serem detectadas em exames como tomografia, mamografia ou ressonância magnética.
Quais tipos de câncer podem ser detectados?
Embora ainda não substitua completamente a biópsia convencional, a tecnologia já apresenta resultados importantes em diferentes tumores.
Entre eles estão:
- câncer de pulmão;
- câncer de mama;
- câncer colorretal;
- câncer de próstata;
- câncer de pâncreas.
No câncer de pulmão, por exemplo, o exame identifica mutações no gene EGFR, fundamentais para indicar terapias-alvo específicas. Já nos tumores de mama e intestino, também auxilia no monitoramento da resposta ao tratamento e na identificação precoce de possíveis recidivas.
Segundo o especialista, a evolução tecnológica tem ampliado continuamente a sensibilidade do exame, tornando-o uma ferramenta complementar cada vez mais relevante para o diagnóstico e o acompanhamento da doença.
Menos invasivo e mais seguro
Além da praticidade, a biópsia líquida pode evitar procedimentos complexos em situações de maior risco.
De acordo com o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello, pacientes com lesões localizadas em regiões delicadas, como a coluna vertebral, podem se beneficiar da técnica. “Nesses casos, uma biópsia convencional pode representar riscos importantes. A análise pelo sangue permite confirmar características do tumor e iniciar o tratamento sem submeter o paciente a um procedimento altamente invasivo.”
Outro benefício é o acompanhamento contínuo da doença. Como o exame pode ser repetido ao longo do tratamento, os médicos conseguem avaliar a resposta às terapias, identificar novas mutações e ajustar a estratégia terapêutica sempre que necessário.
A tecnologia já está disponível no Brasil?
Apesar dos avanços, a biópsia líquida ainda está concentrada em laboratórios privados e centros especializados em oncologia de precisão. O principal obstáculo para ampliar seu acesso continua sendo o custo, o que limita sua incorporação tanto pelos planos de saúde quanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Mesmo assim, especialistas acreditam que esse cenário tende a mudar nos próximos anos, à medida que a tecnologia se torne mais acessível e novos estudos confirmem seus benefícios.
O futuro do diagnóstico do câncer
A expectativa da comunidade científica é que, em um futuro próximo, exames de sangue consigam identificar precocemente dezenas de tipos de câncer antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas.
Esse avanço representa um dos pilares da medicina personalizada: tratamentos mais precisos, diagnósticos antecipados e melhores perspectivas de qualidade de vida para os pacientes.
Se confirmadas as expectativas, a biópsia líquida poderá consolidar uma mudança histórica na forma como o câncer é diagnosticado e acompanhado, tornando um simples exame de sangue um dos principais aliados da prevenção e da oncologia do futuro.
PROF. DR. RAMON ANDRADE DE MELLO: Médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, pós-doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra), pesquisador honorário da Universidade de Oxford (Inglaterra), pesquisador sênior do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor visitante da Kent and Medway Medical School, University of Kent (Inglaterra), doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Tem MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. É pesquisador e professor do doutorado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em São Paulo, e membro do Conselho Consultivo da European School of Oncology (ESO). O oncologista tem mais de 120 artigos científicos publicados, é editor de quatro livros de Oncologia, entre eles o Medical Oncology Compendium, publicado pela Elsevier em 2024. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru (SP). CRMSP 181245 | RQE 67356 | Instagram: @dr.ramondemello
fonte: hollding comunicação