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Metade das mulheres latino-americanas tem medo de parecer exageradas ao falar sobre seus objetivos, aponta estudo inédito

Redação Graciolijulho 3, 2026

Pesquisa da Casa Mundo Market Intelligence sugere que mecanismos de autocensura construídos ao longo da vida podem influenciar a forma como mulheres brasileiras, colombianas e mexicanas disputam oportunidades e constroem suas trajetórias profissionais 

Para muitas mulheres latino-americanas, falar sobre sonhos, conquistas e objetivos profissionais ainda envolve o receio de parecer exagerada ou ambiciosa demais  – Créditos: Divulgação

Falar sobre resultados, defender ideias e demonstrar confiança são comportamentos valorizados no ambiente profissional. Ainda assim, para muitas mulheres, expressar ambição continua sendo um exercício cercado de cautela. Pesquisa da Casa Mundo Market Intelligence, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo na América Latina, realizada em parceria com a Natura, mostra que 44% das mulheres latino-americanas têm medo de parecer exageradas ou iludidas ao falar sobre seus sonhos e objetivos.

O estudo “Deixa a Mulher Latina Sonhar”, disponível em https://casamundopesquisa.com.br/estudo_mulher_latina, ouviu 320 mulheres de 20 a 55 anos no Brasil, México e Colômbia e ajuda a compreender uma barreira menos visível enfrentada pelas mulheres ao longo da vida profissional. Mais do que questões relacionadas a remuneração, acesso a oportunidades ou representatividade em cargos de liderança, a pesquisa sugere que parte das desigualdades pode estar ligada à forma como muitas mulheres aprendem a enxergar suas próprias possibilidades, comunicar seus objetivos e ocupar espaços de protagonismo.

Quando um caminho parece não ser para você

Outro resultado que chama atenção é a percepção de pertencimento. Entre as entrevistadas, 32% afirmam sentir que determinados objetivos não são para pessoas com perfil, origem ou realidade semelhantes às suas.

Na prática, isso significa que algumas possibilidades deixam de ser consideradas antes mesmo de serem tentadas. Não porque faltam capacidade ou interesse, mas porque determinados espaços continuam sendo percebidos como distantes ou incompatíveis com suas trajetórias.

O resultado é um processo silencioso de auto exclusão, em que oportunidades deixam de ser vistas como acessíveis muito antes de qualquer barreira externa se apresentar.

Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence, destaca que a autocensura feminina é resultado de mensagens e expectativas sociais incorporadas ao longo da vida  – Créditos: Divulgação

“Muitas vezes a discussão sobre desigualdade no mercado de trabalho se concentra apenas nas barreiras que as mulheres encontram ao longo da carreira. Mas os dados da nossa pesquisa mostram que existe um processo anterior. Muitas crescem aprendendo que demonstrar ambição pode soar inadequado, excessivo ou até arrogante. Isso influencia a forma como elas falam sobre si mesmas, apresentam suas conquistas e ocupam espaços profissionais. Percebemos que o problema não é falta de ambição, e sim a dificuldade de se sentir autorizada a expressá-la”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence.

Quando o limitador deixa de ser externo

Um dos achados que mais chamou a atenção das pesquisadoras está relacionado à origem dessas barreiras. Ao contrário do que normalmente aparece nos debates sobre desigualdade de gênero, as entrevistadas não apontam principalmente empresas, chefes ou parceiros como responsáveis por limitar seus projetos de futuro.

Entre as mulheres ouvidas, 48% afirmam que os principais limitadores dos seus sonhos são elas próprias ou figuras femininas da família, resultado de como o  machismo estrutural opera. Ao longo da vida, normas sociais, expectativas de comportamento e ideias sobre o que seria adequado para uma mulher acabam sendo incorporadas e reproduzidas dentro do próprio ambiente familiar. Já pais e parceiros homens foram mencionados por 20% das entrevistadas.

O resultado sugere que muitas das mensagens recebidas ao longo da vida deixam de atuar apenas como influências externas e passam a ser incorporadas à forma como as próprias mulheres enxergam suas possibilidades. O que começou como uma expectativa social ou familiar acaba se transformando em um filtro interno para avaliar escolhas, desejos e oportunidades.

Ambição não é o problema

Muito além do que uma pesquisa sobre sonhos, o estudo propõe uma reflexão sobre como as expectativas culturais moldam trajetórias individuais. E sugere que parte das desigualdades observadas na vida adulta pode começar muito antes da entrevista de emprego, da promoção ou da disputa por cargos de liderança. Pode começar no momento em que uma menina aprende quais objetivos parecem possíveis, e quais parecem grandes demais para serem ditos em voz alta.

Para Adriana Hack, compreender esses mecanismos é tão importante quanto discutir as barreiras que as mulheres encontram ao longo da carreira. “Quando olhamos para a desigualdade de gênero, normalmente focamos nas portas que não se abriram. Mas os dados mostram que existe uma etapa anterior: a forma como muitas mulheres aprendem a enxergar a si mesmas e aos próprios sonhos. Se uma mulher cresce acreditando que precisa ser discreta, não chamar atenção ou moderar suas ambições, isso influencia a maneira como ela ocupa espaços, faz escolhas e constrói sua trajetória. O desafio não é ensinar mulheres a sonhar ou a ter ambição. É criar condições para que elas se sintam autorizadas a expressar tudo aquilo que já são capazes de imaginar para si mesmas”, finaliza.

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