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Caso do cachorro Orelha expõe como a crueldade se normaliza e revela raízes do bullying na sociedade

Redação Graciolijaneiro 28, 2026

Rir da dor também é violência e esse tipo de comportamento não começa nem termina com um animal.

Imagem feita via IA – Gemini


O caso do cachorro Orelha, que ganhou repercussão nas redes sociais após cenas de sofrimento acompanhadas por risos, reacendeu um debate urgente: por que a violência nem sempre é reconhecida como tal? E o que episódios como esse dizem sobre a forma como a sociedade aprende a lidar ou a ignorar a dor do outro?

Para a especialista em saúde mental e autora do livro “A Audácia de Ser Feliz”, Daniela Suniga, a violência raramente começa de forma explícita. “Ela nem sempre vem acompanhada de gritos ou agressões diretas. Muitas vezes, nasce de maneira silenciosa, disfarçada em piadas, risadas e atitudes que minimizam o sofrimento e normalizam a crueldade”, explica.


Quando o sofrimento vira entretenimento

Rir da dor de um animal indefeso, segundo a autora, revela uma falha profunda na construção da empatia. “Esse riso não é inocente. Ele aponta para a incapacidade de reconhecer o sofrimento do outro como algo que importa. Quando a dor deixa de causar incômodo, abrimos espaço para formas cada vez mais graves de violência”, alerta.

É justamente nesse ponto que o caso do Orelha se conecta diretamente ao bullying. A autora explica que o bullying nasce da mesma lógica: a normalização da dor alheia. “Primeiro, o outro é desumanizado ou, neste caso, ‘desanimalizado’. Seu sofrimento deixa de ser visto como real e passa a ser tratado como algo aceitável, até divertido. É assim que a violência se estrutura”, afirma.

Orelha não era “só um cachorro”

Reduzir o caso a “apenas um animal” é, para a especialista, parte do problema. “Orelha representava vínculo, cuidado e confiança. Quando esse vínculo é quebrado com crueldade, não é apenas o animal que sofre. É a nossa capacidade coletiva de sentir, respeitar e proteger a vida que se rompe”, destaca.

Além disso, Daniela ressalta que a forma como lidamos com a dor dos mais vulneráveis, sejam animais, crianças ou grupos fragilizados, revela muito sobre os valores que estamos ensinando, direta ou indiretamente.


Honrar o Orelha é recusar a indiferença

Mais do que indignação momentânea, honrar o Orelha significa transformar o desconforto em reflexão e ação. “É nomear a crueldade, recusar a indiferença e ensinar empatia com palavras e atitudes. Significa afirmar, de forma clara, que a dor do outro, seja animal ou humana, sempre importa”, conclui a autora.

Para ela, episódios como esse não devem ser esquecidos rapidamente, mas utilizados como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre educação emocional, responsabilidade coletiva e os limites éticos que não podem ser ultrapassados.

Entrevista com Daniela Suniga

1. Por que a violência nem sempre é fácil de identificar?
Daniela – “Porque a violência raramente começa de forma escancarada. Ela quase sempre nasce no silêncio, disfarçada de brincadeira, de risada, de “não foi nada”. Quando a dor do outro é minimizada, a crueldade passa a ser aceita sem ser nomeada. E tudo o que não é nomeado tende a se repetir e se fortalecer.”

2. O que os risos diante do sofrimento de um animal revelam?
Daniela – “Revelam uma ruptura profunda com a empatia. Quando alguém ri da dor de um ser indefeso, mostra que deixou de reconhecer aquele sofrimento como algo que merece respeito. Esse riso não é inocente: ele aponta para uma anestesia emocional, para a perda da capacidade de se comover com a vulnerabilidade do outro”.

3. Qual a relação entre o caso do Orelha e o bullying?
Daniela – “É a mesma raiz. O bullying nasce quando a dor do outro é normalizada, quando alguém passa a ser visto como menos digno de respeito. Primeiro vem a desumanização — ou, nesse caso, a “desanimalização”. Depois, o sofrimento vira piada, entretenimento, algo aceitável. É exatamente assim que a violência se estrutura, tanto contra animais quanto contra pessoas”.

4. Por que dizer que Orelha não era “só um cachorro”?
Daniela – “Porque ele simbolizava vínculo, cuidado, confiança e afeto. Quando esse vínculo é rompido com crueldade, não é apenas o animal que sofre. É a nossa própria capacidade coletiva de proteger, respeitar e honrar a vida que é ferida. Reduzir a “apenas um cachorro” é parte do mecanismo que tenta diminuir a gravidade do que aconteceu”.

5. Como a sociedade pode honrar o Orelha para além da indignação momentânea?

Daniela – “Honrar o Orelha é não permitir que a indiferença vença. É nomear a crueldade, recusar a banalização da dor e transformar esse choque em consciência. É ensinar empatia, limites e responsabilidade emocional. É afirmar, com clareza, que a dor do outro — seja animal ou humana — sempre importa e nunca deve ser motivo de riso”.

Sobre Daniela Suniga

Especialista em saúde mental, terapeuta, mentora, treinadora de mentes e autora, Daniela Suniga atua há mais de 20 anos no cuidado emocional de adultos, crianças e adolescentes. É autora de Audácia de Ser Feliz e idealizadora de projetos voltados à educação emocional, com foco em consciência, limites, presença e prevenção do sofrimento psíquico.

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