“Arqueologia das dores” aborda ainda importantes questões sociais e de gênero como silenciamentos e humilhações que ainda insistem em marcar a relação entre patrão e empregados
Foto: Via Assessoria Jimenes Comunicação

Lia d’Assis é uma escritora prolífica. Desde 2013, quando iniciou sua trajetória de publicações impressas em editoras tradicionais, já escreveu e lançou cinco livros: duas obras voltadas para o público infanto-juvenil e três livros de poesia. A sua sexta obra, “Arqueologia das dores”, publicada em maio de 2026, é o primeiro romance direcionado ao público adulto. No livro, Lia se debruça sobre o relacionamento em crise de Maria Lúcia (Malu) e Alberto (Beto), crise conjugal que se aprofunda com a entrada em cena de um terceiro elemento: Lurdes, mãe de Alberto.
Desse tema prosaico, a autora entrega um texto poético e pungente, ao contar as desventuras do casal de forma inusitada, a saber, por meio de relatos dos três personagens principais da trama: Malu, Beto e Lurdes. Não à toa, a obra recebe de Lia três subtítulos: “Museu de Malu”, “Caixa de Pandora de Lurdes” e “Desvãos de Alberto”. São eles que, a partir de suas perspectivas únicas sobre fatos vividos em comum, farão com que a história do livro não se resuma à sua trama principal, mas se desdobre perante os olhos do leitor. Os relatos desenterrarão memórias e traumas, revelando mais sobre si próprios do que alguns personagens desejam, dando a cada um deles e à história do livro uma dimensão mais complexa e profunda.
Malu é a protagonista da trama. É a partir de sua insatisfação com um relacionamento que considera desprovido de paixão e de diálogo, que toma a iniciativa de revirar “gavetas”, a fim de dissolver angústias que há muito se acumulam, não antes sem ser advertida para não o fazer. “‘Não abra! É caminho doloroso e sem volta’, advertiram-me os sensatos”, diz a personagem no início da obra. Recomendação à qual só pode dar uma resposta: “Não posso mais! Não posso mais!, grito eu, que por toda minha vida me senti enchendo gavetas de segredos e mágoas. Agora que já abri as primeiras, não posso fingir que não tirei gavetas do meu ventre e que os vãos ainda doem, preciso ir até o fim”.
Malu e Beto são opostos. Ela é emotiva, sensível, poética. Ele é racional, frio, pragmático. Pressionado pelos questionamentos da esposa e por suas indagações existenciais, no entanto, Beto reconhece suas fragilidades emocionais. Ao afirmar-se, em seus relatos, como alguém com uma visão de mundo completamente antagônica à de Malu, revela os ensinamentos e percalços que lhe fizeram manter essa posição, muitas vezes, indiferente diante da vida. Em certo momento, justificando suas (in)ações à esposa, diz: “Você julga que não digo por que não quero? Não aprendi a fazer isso. Cresci aprendendo a ficar quieto, e isso não foi ruim. Não fazia diferença a ninguém o que eu pensava ou sentia. Você é a primeira pessoa no mundo a exigir que eu me explique”.

Lia d’Assis é professora, escritora e doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
A grande responsável pela forma como Beto atua no mundo é Lurdes, cuja participação na trama se desenrola de modo um pouco distinto do que a dos outros personagens: e sua primeira aparição se dá através de laudos médicos em que nos inteiramos sobre seu diagnóstico de demência. Seus confundem passado e presente, devaneios e memórias, deixando escapar segredos que desnudam verdades incômodas. Suas reminiscências explicam porque se tornou uma pessoa dura e ressentida.
Outros personagens de destaque do livro são Sebastiana (Tiana), D. Magnólia e Dr. Augusto Menezes. Tiana é cozinheira da casa dos Menezes, contraponto dócil e amoroso à dureza de Lurdes. Por ela, Beto nutre sentimentos filiais. D. Magnólia é a patroa de Lurdes, uma espécie de fantasma que não cansa de assombrar suas lembranças. A ela, a mãe de Beto direciona seus principais descontentamentos e impropérios quando começa a afrouxar os freios sociais. Filho de D. Magnólia, Dr. Augusto exerce papel-chave na trama de Beto. Mesmo sem sermos apresentados profundamente a suas qualidades, sabemos muito bem de que tipo se trata a partir de suas ações.
O núcleo dos Menezes, aliás, expõe uma importante faceta do romance de Lia d’Assis: sua preocupação com questões sociais. As interações de Lurdes e Beto com D. Magnólia e Dr. Augusto evidenciam a humilhação, o silenciamento, o preconceito e a “Arqueologia das dores” também se debruça sobre questões de gênero ao apresentar personagens que foram vítimas de estupro e ao descrever com destemor e franqueza cenas de abusos sexuais.
Anatomia de um casamento em vias de desaparecer, “Arqueologia das dores” revela-se como um livro muito mais complexo que o resumo de sua trama principal. Ao apresentarem-se, ao justificarem suas ações e suas maneiras de ser, ao escavarem memórias e dores, os personagens desvelam histórias de solidão e desamparo, ódio e rancor, mas também de amor, carinho e cuidado, mesmo que às vezes apresentado de forma tortuosa, errática, como somos todos. E se o caminho é doloroso, o desfecho, pelo menos para Malu, dá sinais de que uma vida com menos sofrimento é possível.
Sobre a autora
Lia d’Assis nasceu no interior de São Paulo no verão de 1979. Mestra em Educação e doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trabalhou como colaboradora editorial e, atualmente, é professora de literatura no Instituto Federal de São Paulo (IFSP). É autora dos livros Uma canção desafinada de Luísa para Ravi (Patuá, 2023), Falso Infinito (Patuá, 2021) e Nem asas pelos ares (Urutau, 2017). Em 2025, foi contemplada pelo PROAC (Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), para elaboração e publicação de seu primeiro romance, Arqueologia das Dores (Reformatório, 2026).

Ficha técnica:
Livro: Arqueologia das dores
autora: Lia d’Assis
gênero: romance
editora: Reformatório
formato fechado: 14 x 21cm
n. de páginas: 216
ISBN: 978-65-84041-15-8
Preço sugerido: R$ 64,00