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A contradição do nosso tempo

Redação Gracioliabril 6, 2026

Daniela Suniga, especialista em desenvolvimento humano traz a pergunta: em tempos de NR1, que tipo de cultura queremos alimentar daqui para frente?

Dani Suniga. Foto arquivo pessoal

artigo por Dani Suniga.

Tenho observado com muita atenção e, em alguns momentos, até com certo espanto, alguns acontecimentos recentes na televisão e na cultura popular.

Os episódios de bullying no Big Brother Brasil 2026, o olhar de desdém trocado entre atrizes durante a entrega do prêmio Melhores do Ano para Grazi Massafera, e até a recente contratação de Felca pela própria Globo, uma figura que construiu parte da sua relevância justamente criticando esse tipo de dinâmica.

Esses acontecimentos, quando colocados lado a lado, revelam algo maior do que simples episódios isolados. Eles revelam uma contradição cultural profunda.

De um lado, vivemos um tempo em que as empresas, instituições e organizações discutem cada vez mais a importância de ambientes psicologicamente seguros. A própria atualização da NR-1, que passa a exigir das empresas atenção real à saúde mental e ao assédio moral no trabalho, mostra que existe uma consciência crescente sobre o impacto das relações tóxicas.

Mas, ao mesmo tempo, na esfera do entretenimento, especialmente nos reality shows, comportamentos que se aproximam do assédio moral, da humilhação pública e da violência psicológica são transformados em espetáculo.

E mais do que isso: frequentemente são premiados com audiência. Isso revela algo muito importante sobre a sociedade. A televisão, os realities e as redes sociais não criam esses comportamentos do nada. Eles funcionam como espelhos amplificados daquilo que já existe na cultura.

O que estamos vendo não é apenas entretenimento. Estamos vendo o inconsciente coletivo sendo exposto em praça pública. Existe uma curiosidade humana muito antiga em observar conflito, rivalidade, exclusão e julgamento. Desde os tempos mais antigos, multidões se reuniam para assistir disputas, punições e confrontos.

Hoje isso acontece em formato de programa televisivo. O problema não está apenas no formato do entretenimento, mas no fato de que a sociedade ainda não aprendeu completamente a lidar com as próprias sombras.

Falamos de empatia, mas muitas vezes ainda nos alimentamos da exposição do outro. Falamos de respeito, mas ainda sentimos uma estranha atração por conflitos. Falamos de saúde mental, mas continuamos premiando comportamentos que ferem emocionalmente. Essa é a contradição. E talvez ela explique por que nunca vimos tantas pessoas emocionalmente esgotadas.

Vivemos uma época em que as máscaras sociais são cada vez mais sofisticadas. Existe um discurso público sobre consciência, respeito e evolução, mas muitas vezes as estruturas culturais continuam reforçando dinâmicas de competição, humilhação e validação através da exposição.

Isso gera um ruído interno coletivo. As pessoas sentem que algo não está coerente. E quando a cultura envia mensagens contraditórias, o resultado costuma ser confusão emocional e desgaste psicológico.

Por isso, a discussão sobre saúde mental nas empresas como propõe a nova NR-1 é extremamente importante. Mas ela só será realmente transformadora se vier acompanhada de uma mudança mais profunda na forma como a sociedade entende as relações humanas.

Porque ambientes seguros não se constroem apenas com normas. Eles se constroem com consciência. Com maturidade emocional. Com responsabilidade sobre o impacto das nossas palavras, dos nossos gestos e até das nossas escolhas de entretenimento. Talvez o que estejamos vivendo seja justamente um momento de transição cultural.

As estruturas antigas baseadas em competição, exposição e julgamento, ainda estão muito presentes. Mas uma nova consciência começa a surgir. Uma consciência que questiona. Que observa. Que se incomoda. E o incômodo, muitas vezes, é o primeiro sinal de que algo dentro da cultura, e dentro de nós, está começando a despertar.

Porque quando passamos a perceber essas contradições com clareza, algo muda.

A pergunta deixa de ser apenas por que isso acontece, e passa a ser: que tipo de cultura queremos alimentar daqui para frente? Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes do nosso tempo.

E ela começa sempre no mesmo lugar. Na consciência de cada um de nós.

Sobre Daniela Suniga: Especialista em saúde mental, terapeuta, mentora, pesquisadora do desenvolvimento humano e autora. Atua há mais de 20 anos no cuidado emocional de adultos, crianças e adolescentes. É autora de Audácia de Ser Feliz e idealizadora de projetos voltados à educação emocional, com foco em consciência, limites, presença e prevenção do sofrimento psíquico. Instagram: @dani.suniga

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