Quando o medo e o estresse afetam a saúde dos filhos, a abordagem médica integrativa pode oferecer um caminho seguro para o controle emocional.
Os pais devem procurar ajuda a partir do momento em que percebem que o filho está diferente daquilo que sempre foi ou além do que seria esperado para a idade. foto Canva
A linha entre o comportamento típico da idade e os sinais de alerta da ansiedade pode ser tênue. Muitas vezes, o que parece ser apenas uma “fase” esconde um sofrimento emocional que reflete diretamente no corpo. Irritabilidade, isolamento e dores constantes sem causa aparente são sinais de que o equilíbrio foi perdido.
O ALERTA:
Ver um filho se isolar ou sofrer com dores físicas frequentes é um dos maiores desafios para pais e educadores.Para entender como a medicina integrativa pode intervir nesse cenário, conversamos com o Dr. Sidney Brandão, pediatra e presidente do Colégio Médico de Acupuntura de São Paulo (CMA-SP). Segundo o especialista, a acupuntura surge como uma aliada poderosa, capaz de regular o sistema nervoso e devolver a qualidade de vida aos jovens. “Observamos mudanças que vão além do emocional; a ansiedade infantil frequentemente se manifesta através de náuseas, dores de cabeça e até quadros de fibromialgia juvenil”, alerta o médico.
Dr. Sidney Brandão, médico acupunturista e pediatra, adverte que o limite é ultrapassado quando o convívio social e a saúde física começam a ser prejudicados. Foto: acervo dr. Sidney
1 – Quais são os sinais mais comuns de ansiedade em crianças e adolescentes que costumam passar despercebidos pelos pais e educadores?
O que mais passa desapercebido são as mudanças no comportamento que, muitas vezes, são interpretadas como normais da idade. O adolescente é naturalmente confrontador, questionador, dificilmente aceita algo de forma tranquila e costuma pedir explicações. Isso faz parte. O problema é quando esse comportamento se intensifica demais ou quando acontece o oposto. Às vezes, o jovem passa a ficar excessivamente agressivo, muito reativo, desrespeitoso o tempo todo, com reações exageradas que fazem os pais se perguntarem por que ele está tão intenso. Em outros casos, acontece o inverso: aquele adolescente que questionava tudo passa a não confrontar mais nada, aceita tudo, fica sempre de cabeça baixa, não reage a estímulos, demonstra indiferença, um “não tô nem aí”. Como o adolescente é muito polar, ou muito agitado ou muito quieto, ou muito bravo ou muito alegre, essas mudanças acabam sendo naturalizadas, e os adultos não percebem que aquilo já passou do limite esperado.
2 – De que forma a ansiedade se manifesta no corpo das crianças, além dos aspectos emocionais e comportamentais?
A ansiedade se manifesta muito pelo corpo. A criança ou o adolescente pode apresentar náusea, vômitos, dor abdominal, dor de cabeça, enxaqueca, dificuldade para dormir, dores articulares. Muitas vezes são dores que não têm explicação clínica, você investiga, faz exames, passa por vários especialistas e não encontra uma causa orgânica. Em quadros mais intensos, isso pode evoluir para fibromialgia juvenil, com dor ao toque, dificuldade extrema para dormir, incômodo com roupa, lençol, travesseiro. O trato gastrointestinal costuma ser um reflexo muito claro desse tipo de sofrimento emocional. O corpo acaba exteriorizando uma ansiedade que é muito intensa.
3 – Em que momento os responsáveis devem buscar ajuda especializada e evitar tratar esses sintomas apenas como “fase”?
Os pais devem procurar ajuda a partir do momento em que percebem que o filho está diferente daquilo que sempre foi ou além do que seria esperado para a idade. Não existe adolescente equilibrado, isso é ilusão, mas existe limite. Quando você percebe que passou um pouco desse extremo natural da polaridade, quando as oscilações ficam intensas demais, quando há agressividade constante, apatia profunda ou instabilidades muito difíceis de manejar, aquele adolescente que num dia está muito mal e no outro parece normal, isso merece atenção. Os pais, que acompanham o dia a dia, percebem essas mudanças antes de qualquer pessoa. A conversa frequente com o pediatra é fundamental para identificar quando não se trata mais apenas de uma fase.
4 – Como a acupuntura atua no sistema nervoso de crianças e adolescentes e de que maneira ela contribui para o controle emocional?
A criança e o adolescente são muito Yang, têm muita energia, muita agitação. Do ponto de vista da Medicina Tradicional Chinesa, quando esse Yang fica excessivo e não há Yin suficiente para equilibrar, surgem irritabilidade, agitação, medos e dificuldade de foco. A acupuntura entra justamente para equilibrar isso. A gente seda o que está muito acentuado e estimula o que não está funcionando bem, fortalecendo o Yin, trazendo mais serenidade, calma e equilíbrio emocional. É um trabalho de equilíbrio energético que se reflete diretamente no comportamento e no bem-estar.
5 – Existe respaldo científico e médico para o uso da acupuntura no tratamento da ansiedade infantil? O que os estudos mostram?
A acupuntura é uma prática médica utilizada há muitos anos, inclusive em ambiente universitário e hospitalar. Eu trabalhei com crianças e adolescentes em instituições como a UNIFESP, tratando quadros complexos de ansiedade, depressão, TDAH, esquizofrenia e dores crônicas. A experiência clínica mostra resultados muito consistentes na melhora dos sintomas e da qualidade de vida. É uma prática reconhecida e amplamente utilizada dentro da medicina, com segurança e eficácia quando bem indicada.
6 – A acupuntura pode ser utilizada de forma isolada ou deve integrar um cuidado multidisciplinar no tratamento da ansiedade?
Ela pode ser usada das duas formas, depende do caso. Em muitos quadros de ansiedade, hiperatividade e TDAH, a acupuntura sozinha já permite equilibrar a criança e, muitas vezes, reduzir ou até retirar medicações. Em quadros mais graves, como esquizofrenia, obviamente não se suspende a medicação, mas a acupuntura ajuda a melhorar a resposta, ajustar doses e aumentar o bem-estar. Ela não interfere negativamente em nenhum tratamento, pelo contrário, costuma potencializar os resultados.
7 – Como é feita a adaptação da acupuntura para o público infantil e adolescente, garantindo segurança e acolhimento durante as sessões?
A acupuntura é cem por cento segura para crianças e adolescentes. A gente usa agulhas menores, mais finas, adaptadas para essa faixa etária. Existem agulhas específicas que praticamente não causam dor e permitem que a criança se movimente sem risco. O procedimento é rápido, tranquilo, e a abordagem precisa ser acolhedora, conversando, criando vínculo e confiança. Na prática, as crianças aceitam muito bem, relaxam e muitas vezes dormem durante a sessão. Quem costuma ter mais medo são os pais, não as crianças.
8 – Quais benefícios os pais costumam perceber no dia a dia das crianças após o início do tratamento com acupuntura?
Os pais percebem melhora no sono, na atenção, no rendimento escolar e no comportamento geral. A criança fica menos agitada, ouve melhor, brinca melhor, consegue focar mais e se organiza melhor no dia a dia. A redução da agitação mental facilita o aprendizado e melhora a convivência familiar. Além disso, dores crônicas e sintomas físicos recorrentes costumam diminuir bastante. Quando a criança entra em equilíbrio, muitos problemas do cotidiano se resolvem naturalmente
Contato: https://www.instagram.com/cma.sp/ / https://cmaesp.org.br/
(origem:rojas)